quinta-feira, 31 de março de 2011

Onde é o céu?



Não adianta fazer força, porque quando elas não querem não há quem faça querer. "Ai palavras, ai palavras. Que estranha potência a vossa"*. Teimosinhas? Vamos lá? Acordem! Mexam-se! Sem a balbúrdia provocada por vocês não há como descortinar o mundo que se esconde nas entrelinhas da vivência cotidiana.

Tudo bem. Já que hoje estão preguiçosas, muito desobedientes, outro mundo será desvelado com a ajuda singela, parca, contudo agradável e sincera, das poucas palavras que se agitaram para inscrever um novo universo.

Lembrando Sylvia Orthof num poema em que pergunta "Você já contou estrelas?", indago: "Você já sentiu o nascer da noite? Da Lua? Das estrelas? Da alegria presente no céu iluminado?"

Atualmente, a maioria das pessoas nem se dá conta que exista céu. As luzes da cidade escurecem a lindeza das estrelas; os carros no trânsito, a pressa em chegar, as novelas das 17:30, 18:00, 19:00, 21:00 horas, o trabalho, os estudos, tudo impossibilita a percepção do magnífico brilho celestial, da magia das cadentes estrelas, do sorriso da Lua Cheia bonachona como é, do carinho do Criador ao colocar, minuciosamente, tudo no seu devido lugar, inclusive, a Cruz do Sul e as Três Marias, A orientação e a proteção maternal para auxiliar os caminheiros a seguirem adiante, no alcance de sonhos, de realizações.

Na correria a humanidade vendada só percebe o morrer da noite quando o aconchego celeste é trocado pelo quarto escuro. As persianas fechadas são como os olhos humanos voltados para o luar. Claridade só as das lâmpadas no interior das residências. Brilho só o da televisão com seus flashes sedutores.

Ah, que pena! Hoje deixei a noite morrer. Não a vi chegar.



E, para vocês, potentes palavras, uma homenagem das vistosas palavras de Cecília Meirelles:

*Das palavras aéreas

Ai, palavras, ai, palavras,

Que estranha potência a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

Sois de vento, ides no vento,

No vento que não retorna,

E, em tão rápida existência,

Tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

E quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,

Que estranha potência a vossa!

Todo o sentido da vida

Principia à vossa porta;

O mel do amor cristaliza

Seu perfume em vossa rosa;

Sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas.

Ai! Com letras se elabora...

E dos venenos humanos

Sois a mais fina retorta:

Frágil, frágil como o vidro

E mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

Pelo vosso impulso rodam...

(...)

Detrás de grossas paredes,

De leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda

Sem peso de ação nem de hora...

_ e estás no bico das penas,

_ e estais na tinta que se molha,

_ e estais nas mãos dos juízes,

_ e sois o ferro que arrocha,

_ e sois barco para o exílio,

_ e sois Moçambique e Angola!

(...)

Ai, palavras, ai, palavras,

Mirai-vos: que sois agora?

(...)

Ai, palavras, ai, palavras,

Que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro de aragem...

_ sois um homem que se enforca!


(Romanceiro da Inconfidência)

Um comentário:

Paula: pesponteando disse...

Miga, o blog tá lindão...e a beleza não se refere só ao design, mas ao conteúdo, ao encantamento de suas palavras. Quem me dera se na falta de palavras elas me possuissem assim.
Outra coisa, de fato temos um céu tão lindo para não olhá-lo. temos tantas coisas lindas sobre as quais não miramos nosso inculto e míope olhar.
continue nos brindando...bjs